Cãs: A História de Nós Dois


Estou sentada em frente à varanda, no banquinho de madeira pintado de branco que eu insisti para ter. Você achou que era um capricho, enquanto eu dizia que seria algo útil para dois velhos. Olhei para a aliança bastante riscada na minha mão esquerda. Tentei tirá-la para analisar melhor a ação do tempo, mas parecia que ela se transformara em parte de mim. Depois de tantos anos, não poderia ser diferente. O céu laranja de fim de tarde parecia mais uma daquelas antigas pinturas de Monet e me fazia lembrar tantas coisas. Recordava com clareza quando éramos jovens e trocávamos promessas e juras de um amor que começou sem percebermos. Fazíamos planos para uma casa espaçosa de andar e jardim. Oh! É igualzinha à que moramos hoje. E cachorros? Temos e já tivemos vários! Todos com nomes em homenagem à Engenharia, sua paixão. Nesse momento uma brisa suave roça me rosto, como quem faz cócegas e eu sorrio. Lembro das loucuras que fizemos para ficarmos juntos; das fugidas para a casa dos meus pais ou de uma certa garagem que tanto nos proporcionou momentos só nossos. A notícia da sua viagem – ainda que ansiosamente esperada – caiu-me como uma bigorna sobre a cabeça e tive que engolia a seco, porque ali começava nosso futuro. Foi difícil, nós dois sabemos, mas conseguimos. Começa a fazer frio aqui fora. Você sempre disse que sou muito friorenta; você, ao contrário, continua quente. Ah! Seus braços me envolvendo num abraço gostoso e aconchegante. Ainda hoje é no seu colo que eu encontro paz. Você esqueceu os óculos! Ah... tão lindo de óculos... Tão lindo quanto quando dorme com a cabeça enterrada no travesseiro e sorriso nos lábios. Sabia que eu ainda sou apaixonada por você? Isso parece que vai morrer comigo. Minhas mãos já não têm o mesmo vigor de outrora e hoje estão cheias de marcas típicas da idade avançada, mas ainda sua cabeça entre elas quando você fica ansioso ou nervoso ou aborrecido demais com alguma coisa. Então eu a puxo para o meu colo, onde você finge melhorar num instante (eu sei que você melhora de verdade. Sempre foi assim). A noite caiu de vez e o frio aumentou. Seguro-me na cadeira para me ajudar a levantar, carrego seus óculos e caminho, vacilante, para dentro de casa. Assim que me vê, você me olha interrogativo. Mesmo sem ter pronunciado uma só palavra, decifro a expressão de seus olhos miúdos, que perguntam justamente pelos óculos. Levanto a mão trêmula e mostro que estou com eles; você me devolve um sorriso. Já não se parece muito com o de anos atrás, mas eu não vejo outro mais bonito, de tão amplo. Você se senta à mesa da cozinha me esperando fazer um café, enquanto fala sobre a inflação e de como sente falta dos bons tempos da juventude. Então eu lhe falo sobre minhas lembranças de momentos antes e você me pergunta se eu acho que tudo valeu a pena. “Ora, meu velho, é lógico que sim!”, eu lhe respondo sem titubear. Você segura minhas mãos (as suas também envelhecidas) e as aperta de leve. Conheço esse gesto e sei que você me diz que me ama. Beijo sua testa e lhe trago um café fresquinho. Temos várias canecas como aquelas do nosso primeiro piquenique. Qual foi mesmo aquele ano? Entramos em mais uma discussão para saber quem lembra mais o que e você sempre me ganha com sua memória inabalável. Você me beija o dorso da mão e eu faço um muxoxo, chamando-o de exibido. Você me avisa que é hora de irmos deitar. Espanto-me com o horário e seguimos direto para o quarto. Já deitados, ajeito seus travesseiro e lençol. Você me agradece, segura minha mão e adormece.  Nunca conseguimos dormir abraçados, mas desde que casamos adormecemos assim, de mãos dadas. Faço ligeira oração de agradecimento, dou boa noite ao Batuta e desligo o abajur. Sim, tudo valeu a pena. 





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