Memória



Sempre tive uma memória muito falha. Digamos que meu HD mental só armazena coisas que nem mesmo ele sabe classificar depois: eu lembro o nome do filme, mas não lembro a história (ou lembro a história, mas não lembro a cena clímax); lembro de como chegar a um lugar onde passei uma única vez, mas não lembro qual a cor da casa; lembro que morri de rir de um e-mail, mas não lembro como ele começou ou terminou; lembro de cortar as unhas dos pés sempre que estou de tênis; lembro de fazer um ajuste na calça folgada sempre que ela começa a cair no meio da rua e eu ando como se estivesse com algum tipo de TOC. Ou seja, minha memória só funciona bem na hora errada.


Mas tem coisas que não esqueço nem com chocolate. Aquele beijo que começou debaixo do guarda-chuva e depois não viu as gotas que caíam; aquele sorriso de meio metro na frente do trabalho com um bombom nas mãos; aquelas palavras ditas só para mim, ao ouvido, num pôr de sol sem descrição; aqueles olhos traquinas que se apertam e se abrem sempre que as palavras vêm à boca, como que tentando freá-las.


Já vivi muitas coisas, percorri muitos caminhos, longas jornadas. Contudo, minhas lembranças são vagas, mesmo quando se trata de algo que eu julgava importantíssimo. Eu penso: “Isso foi fundamental para o meu crescimento pessoal. Mas como foi mesmo que aconteceu?”. Não lembro. Nem das lágrimas nem do riso que espalhei. Deletado sem aviso prévio nem direito a backup.


Estranho, entretanto, é não esquecer sequer de um detalhe de nossas conversas, mesmo aquelas dos tempos primeiros quando nenhum sentimento ainda existia descarado. Não esquecer a sua roupa quando nos encontramos pela primeira vez; não titubear se perguntada sobre seu cheiro; não esquecer, de forma alguma, a sua expressão quando o esperado se pôs presente.


Nada. Nada escapa da minha caixinha de memória, a que guardo comigo. Aquela que captura em imagens 3D suas ações, sua voz, sua gargalhada, seu riso torto, sua sobrancelha arqueada, suas mãos nos bolsos ou penduradas nas alças da mochila, seu óculos manchado de mim, sua mania de enxugar a testa quando está contando uma história. Nada do que é você escapa de mim.


Alguém conhece um remédio bom pra memória?




Comentários

  1. dizem que acarajé é bom, pq voce come de manha... arrota o dia inteiro o gosto dele. Mesmo no final da noite, vc ainda lembra que comeu o bendito pela manha. rs...
    ahuahuahauhauahuahauhauhauahauhauhauha
    piada mais infame, bem sei, mas nao resisti.
    rs.
    bjinhos!

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  2. Kkkkkkkkkkkkkk... boa, boa. É mais ou menos isso. Você tem uma única vez no dia e passa um tempão depois com o gosto dele. Ho ho ho.

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  3. ah geeente! isso é paixão.
    apaixonados só lembram do que interessam. e o que interessa agora, me diz?

    :)

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