Dora Lice



Pela avenida movimentada, Dora andava a passos lentos. Não tinha vontade de sorrir e sua cabeça estava a mil. Pensamentos atravessavam sua mente como raios e ela sabia que não adiantava tentar organizá-los. Não queria mais continuar naquela vidinha pequena e sem luz. Não sabia o que queria. Sabia o que não queria e isso se resumia a viver.


Uns anos antes havia conhecido um rapaz. Aos seus olhos, era o mais lindo de todos os que conhecera. E ela se apaixonou por suas palavras. Ele era exatamente o tipo de companhia que toda moça queria ter: romântico, engraçado, fiel. Mas ela sabia que ele não a via assim. Gostava dela, ela sentia, mas não a ponto de querê-la. Isso não importava. Ela o tinha de qualquer forma: sorvetes, cinemas, passeios diversos, conversas intermináveis sobre assuntos indiscutíveis. Por um tempo isso foi maravilhoso, mas o amor é uma droga e depois de um tempo a dose precisa ser aumentada.


Dora sabia que aquele rapaz nunca olharia para ela do jeito que era: feia, gorda, desengonçada e sem brilho próprio. Isso fez com que ela criasse uma personagem para que ele a notasse. Não dava jeito. Começou a se questionar por que ele não olhava para ela. Passavam tanto tempo juntos, mas como simples amigos. Ele lhe apresentara coisas que ela jamais supôs existir e isso fazia com que ela alimentasse cada vez mais o seu amor.


Resolveu, então, se declarar. Sem surpresa, o ouviu dizer que só gostava dela como irmã. Mas Dora sempre ouviu dizer que se deve lutar pelo que se quer e ela resolveu ir à guerra; já tinha o amigo e nada lhe tiraria isso. Decidiu investir de todas as formas possíveis, mostrando-se interessante e uma companheira leal.


Caminhando na avenida movimentada, Dora sabia que havia estragado tudo com seu amor sem limites. Sua pressão e seus ciúmes fizeram com que ele não a quisesse por perto e ela sabia que tinha sido a única culpada.

A vida já lhe era demasiada triste: um pai ausente, uma mãe depressiva, sem irmãos ou amigos verdadeiros. Colocou naquele rapaz toda a sua felicidade. Novamente as lágrimas lavaram seu rosto. Ele não a quis. Pior: ele havia encontrado alguém que, segundo ele, era a mulher da sua vida. E ela? Onde ficaram as tardes de conversas intermináveis e e-mails longos explicando a maravilha do amor? Onde estavam os presentes e as juras de “estaremos sempre juntos”? Se ele não a amava, por que a beijou? Ele lhe disse que fora um erro. Ela havia vivido aquilo ou apenas imaginara?

Andava sem rumo e não notou as primeiras gotas de chuva. O céu chorava junto com ela. Acreditava tanto em Deus, mas naquele momento maldisse tudo o que podia. Parecia que nada na sua vida tinha sido feito para dar certo.


Dora parou diante de uma antiga construção. Não sabia explicar porque ela lhe havia prendido a atenção. Teve vontade de sorrir; no alto da sacada havia uma flor num pequeno vaso de acrílico. De longe não sabia distinguir se era uma gérbera ou uma azaléia. Mas Dora viu além do óbvio: a flor pequenina lutava contra o seu destino. Murcha, tentava lutar contra a gravidade que insistia em puxá-la para baixo.


Dora baixou a cabeça e fez uma prece baixa. Deu meia-volta e não olhou para trás.
Com passos apressados, Dora voltou a viver.


Confiram ainda O Capitão (Novo texto em 16-11-2009)

Comentários

  1. Essa á uma história muito comum. E voce foi feliz em saber descrever com tantos detalhes. Eu nao sei onde fica aí o limite do bom observador e do bom escritor, vamos pôr entao um equilibrio entre eles.

    Mobain, acredito sim que muitos dos leitores poderão se identificar com ele.

    Te beijo!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas