Casaquinho azul

"...Sou eu que vou ser seu amigo
Vou lhe dar abrigo
Se você quiser
Quando surgirem seus primeiros raios de mulher(...)
Só peço a você um favor
Se puder
Não me esqueça num canto qualquer..."

                   O Caderno - Chico Buarque









Em 1999, andando sem rumo pelas ruas de minha cidade, eu comprei um casaquinho de tricô feito a mão numa feira de artesanato e bazar, pela bagatela de quinze reais. Achei caro na época, mas pensei: "bom, eu sinto sempre bastante frio e um casaquinho de tricô legítimo vai ser bem aconchegante nessas horas". Não imaginava o que viria pela frente. Esse casaco foi meu amigo fiel durante todos esses onze anos, sempre enxugando minhas lágrimas, me abraçando quando eu estava decepcionada, me amparando quando eu estava triste, me alegrando nos domingos em frente à TV. Minha mãe sempre reclamava comigo dizendo que eu tinha que doá-lo, que ele estava velho demais e todas essas coisas que as mães falam sobre nossas roupas surradas. Mas eu sempre dizia que ele iria comigo aonde quer que eu fosse.

De repente aconteceu o que acontece quando a gente cresce e toma rumos diferentes dos nossos amigos, mesmo os mais queridos: meu casaquinho tão especial fora esquecido, deixado dobrado no fundo do guardarroupa e eu não lembrei dos tempos doídos onde ele foi minha única companhia. Fui egoísta a tal ponto, que sequer lembrava que ele existia. Em todos esses meses de felicidade plena, não me dei conta de que faltava um detalhe. Era ele. O meu melhor amigo nas noites solitárias e longas. Eu o havia abandonado.

Ontem eu tive uma daqueles crises de nostalgia onde a gente lembra até do cheiro da lancheira que usava no maternal. Recordei tantas coisas... De repente, um estalo! Onde estaria o meu casaquinho de tricô azul???? Por onde andaria meu companheiro leal??? Será que minha mãe teria doado ele a alguma campanha do agasalho?? Deus meu! Isso não! Corri a procurá-lo; futuquei gavetas, cabides, caixas. Tudo!

Fui encontrá-lo escondido, encolhido e solitário, no fundo do armário de roupas novas e modernas. Ele me olhou envergonhado, como que pedindo desculpas por não ser nenhum suéter de grife. Pedi-lhe desculpas por minha negligência; a culpa não era dele, senão minha só. Eu é que não deveria tê-lo abandonado à própria sorte depois de tudo o que ele fez por mim. Abracei-o com alegria e senti seu cheirinho de guardado. O mofo fez meu nariz se irritar, mas eu não me importei. Vesti meu casado de tricô azul, feito à mão, e dormi. A noite estava fria e eu fiz uma promessa: nunca mais o deixaria novamente. Ele me abraçou e sorriu. Sabia que essa era apenas mais uma promessa vã. Não se importou. Ele estava feliz. Ambos estávamos felizes. E mais uma vez, mas não pela última, ele me abraçou e velou meu sono. Toda a mágoa tinha ido embora. Sorriu. Sorrimos.

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