Não é bem assim




Acordou cedo naquela manhã. Na verdade, ela sequer dormiu. Passou a noite refletindo sobre tantas coisas e se esqueceu que o dia seguinte seria longo. Levantou com um gosto amargo na boca e os olhos inchados, a expressão abatida. Por que tinha a impressão de que todos os seus sonhos sempre morreriam sonhos? Tentou afugentar um antigo fantasma, mas foi difícil; ele ria ao seu ouvido, como quem diz “não avisei?”. É, avisou. Faltou de bom senso, ela sugeriu. Os dias de hoje não são para sonhadores. São para aquelas pessoas que ignoram a poesia presente em cada manhã e vão atrás de carreira, status e dinheiro. Tudo isso em primeiro lugar.

Foi trabalhar muda, sem jeito para sorrir. Não havia felicidade para ela naquele dia. Uma sensação de que estava sendo inocente lhe invadiu o corpo, penetrou sua alma. E doía. Uma dor lancinante e cruel. Tentava disfarçar sua frustração. Tudo o que sempre prezou, de repente, era um detalhe que pouco importava. Mas sua vida costumava lhe pregar essas peças. Começou a sentir vergonha de tudo o que tinha sentido; tudo aquilo não passava de algo só seu.

À noite, já em casa, estirou-se no sofá desejando não ter vivido aquele dia. Mas ela não podia evitar: passado é ido. Não retorna. Já não sabia como se sentir. De cabeça baixa, pensou consigo “um dia eu ainda mudo esse meu jeito de ser”. Continuava triste, mas nem queria e já nem sabia mais o porquê. Talvez estivesse aumentando demais as coisas. Ou talvez estivesse realmente vendo as coisas sob o ângulo correto agora. Adormeceu sem sono, dormiu sem sonhos.

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