Para todo o sempre


Não estou num daqueles dias alegres e sorridentes. Não. Estou mesmo muito triste e cansada de um monte de coisas (menos do meu amor, que é o que me salva). Estou farta de não me conhecerem e me julgarem; de acharem que me conhecem e me subestimarem; de não saberem o que penso, sinto, quero; de lançarem palavras sem pensar primeiro e sempre me magoarem. Não sei se isso acontece por pura conivência minha ou se eu realmente preciso disso para meu crescimento pessoal. Na verdade não creio que alguém possa crescer tendo só os seus defeitos exaltados. E é aí que está o verdadeiro problema: meus defeitos são sempre os primeiros itens da lista. Não basta ser boa amiga, companheira, leal; tem que ser perfeita. E isso, sinceramente, eu não sou. E quem é? Passo mais da metade do tempo tentando fazer as coisas certas, justamente para não haver nenhum tipo de cara feia ou aborrecimentos. Mas é justamente nas minhas pequenas falhas que sou lembrada. Ora, se não sou uma profissional triunfante, não é minha falta de vontade, pode crer. Se tivessem me perguntado, eu teria dito na hora "trabalho 25h por dia só para ter a minha casa, meu canto". Entretanto, não houve pergunta. Porque é mais fácil apontar. Alguma vez você parou para saber o que eu realmente penso? Claro que não. Sua mente não varia; eu sou aquilo que você vê e pronto. Chorar com filme? Idiotice. Pessoas mais sensíveis choram por bobagem, sabia? Não você, claro. Dura, impiedosa, uma verdadeira fortaleza. Mas como é diferente. Sou frágil, apesar do tamanho. Sou carente. Sou um monte de coisas que você nem imagina que exista ainda numa mulher de 25 anos. Por acaso você sabe que eu morro de vontade de conhecer o Chile? Ah, é verdade. Viagens ao exterior é coisa para quem quer mostrar que tem. Cultura mesmo é sempre ir aos mesmos lugares todos os finais de semana. Por isso estou triste: falta entrosamento, sintonia. Aquela coisinha básica que existem entre pessoas que as vezes nem se amam tanto, mas se dão bem. Pessoas que levam a sério a frase do Voltaire "posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defenderei até morte vosso direito de dizê-la". Na sua mente a combinação é outra "não sei nem quero saber o que você pensa e exijo que faça o que mando". Algo muito semelhante à ditadura mesmo. Mas das piores; você quer negar para si que sou um ser completamente independente de você e dos seus "achismos". Lavo minha roupa, faço meu almoço, acordo no horário e você se quer se dá conta de que a casa anda sempre em ordens quando você não está. É uma afronta para você perceber que não peço sua opinião sobre quase nada e, quando o faço, nem sempre acato o que é dito. Você não conhece minha poesia por pura ignorância. Não sabe a dimensão da minha compaixão nem a exatidão do meu amor. Nega até a morte que possa existir qualquer coisa de boa em mim. Mas há. Só que não vou perder mais o meu tempo tentando te provar que não sou 'algo' e sim 'alguém'. Um alguém que você nem queria, mas que veio só de pirraça, de afronta mesmo; no seu mundo quem manda nem sempre é você. Mas ainda assim estou triste. Ando mesmo triste nesses últimos 25 anos. E você nem se dá conta. Nem a morte te fez aprender algo sobre sentimentos alheios. Não serviria de nada mesmo, não é? Sou triste porque parte de mim esconde algo incompleto, uma lacuna bem no centro desse meu coração que se mostra tão generoso. Não é um pedido de agradecimento ou desculpa que eu quero, mas um simples reconhecimento de que eu sirvo para algo em sua vida. Acho mesmo que minha passagem aqui vai acabar e eu não vou conseguir te ensinar nada sobre perdão. E eu que aprendi a te perdoar desde que nasci, aliás, mesmo antes de nascer. Mas você só me culpa da dor, das preocupações, das dívidas, disso, daquilo. Você nem se dá conta disso, mas eu sou o motivo para todos os seus cabelos brancos (mesmo que nunca tenha dado nenhum trabalho relevante). As vezes você parece me odiar e isso só aumenta a minha tristeza. Só acumula. Mas não tente mudar nem me dizer palavras para aliviar ou mudar esse quadro. O que está feito, está feito e nada mais volta atrás. O que posso fazer? Não repassar isso para os meus quando for a minha vez. Entre nós não há mais nada para ser dito. Eu vou carregar toda a mágoa desses anos comigo. E só comigo. Não vou dividi-la nem com você nem com ninguém. Ela morrerá comigo e se queimará com meu corpo. Ninguém precisa sabê-la. Depois disso, não me olhe torto. Aja como sempre fez: bata sem perceber, danifique sem sentir, minimize sem dó. Deve existir algum prazer nisso tudo. Eu só lamento.

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