Negr'alma



Acendo um cigarro. O terceiro desde que me sentei na velha poltrona de veludo desgastado. Fito o infinito, olhos sem pestanejar. A fumaça azulada que saía por entre meus dedos implorava para ser tragada. Odeio cigarro. Sempre fumei porque achava lindo como as atrizes dos antigos filmes de Hollywood pareciam mais sexy com aquele adereço. Meu corpo está cansado e entrego-me à tepidez da noite. Em algum lugar da minha memória pesa a sua lembrança. Nem consigo mais chorar. Estou seca como as árvores de outono. Vivo esperando o dia em que a vida me puxará de novo o tapete e você me dirá outra vez que não sou bem-vinda. O cigarro esquenta entre meus dedos; desliza por eles e cai no chão. Não tenho reação. Você não me queria, eu sei, fui impertinente e entrei em sua vida mesmo sem seu convite. Pago por isso até hoje. Suas palavras ainda me consomem a alma e me puxam para o mais profundo abismo que já se viu. O céu está coberto de nuvens cor de chumbo; assim é meu coração: feito de pedra, negro e temeroso. Nunca fiz o que desejava, não era? Nunca fui como você gostaria que eu fosse. Fecho os olhos e aspiro ao aroma de terra úmida. A chuva cai e vejo suas gotículas espessas golpearem a janela. Você nunca me amou, nunca me quis; nunca fui objeto de seu desejo ou a mulher de seus sonhos. A verdade me dói; atravessa meu peito e me corta a respiração. Por que fez isso comigo? Por que me deixou sonhar tantos sonhos vãos? Por que me pediu para ficar se não me quer por perto? Mais um cigarro. Fico me perguntando quem é você e quem sou eu. Somos parecidos. Temos a mesma essência, os mesmos gestos. Completamo-nos, no entanto somos distintos e alheios um ao outro. A tempestade lá fora combina com minha alma. Começa a fazer um frio cortante, mas não me movo. Não me atrevo a sair do lugar e ter que mirar seu rosto inquisidor. Seus olhos felinos me cortam a pele, suas palavras ácidas me arrancam o peito. Como sou covarde! Covarde como você! Covarde por aceitar tal condição. Covarde por não te odiar. Covarde por não dizer o que sinto de verdade. As horas passam e a chuva cessa. Minhas costas doem, meus olhos ardem e minha boca está seca. O casarão está em silêncio; já posso retirar-me sem receio. Saio da biblioteca escura; olho para trás e ainda consigo perceber uma cortina fina de fumaça de um cigarro que parei de contar. Rastejo até as escadas, da porta do quarto sai um filete de luz da rua. Lavo o rosto e me olho no espelho. Estou velha demais para sorrir para mim mesma. Olhos no vazio. Boca em arco. A solidão me devorou meus melhores anos, me roubou o sono e levou consigo meus sonhos de menina. Sou agora um saco de ossos sucumbindo ao peso de uma vida sem história. Deito-me na cama de lençóis gelados. Fecho os olhos e penso num dia melhor amanhã. Quem sabe...

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