I wanna love you and treat you right...
Nossas escolas ficavam uma de frente para outra. Sempre que chegava, sentava no banquinho de cimento e, como quem nada quer, ficava esperando que ele chegasse (quando ele não pegava o mesmo transporte que eu). Seus cabelos ora presos, ora amarrados em rabo de cavalo sempre irradiavam a luz do sol e pareciam mais claros naquelas tardes de outono. Eu reparava seu jeito de segurar o caderno, de mexer nos cabelos, de cumprimentar os amigos e – argh! Que raiva!! – de beijar os rostos das meninas. E eu? Quando seria minha vez? Nesta época fiz grandes amizades dentro e fora da escola; amigas que hoje são, ainda que fisicamente distantes, sempre presentes. Uma delas, e essa estudava comigo, foi taxativa ao decidir: aquilo precisava acabar! “Acabar? Como?”. Eu, que sempre tinha estudado no meu bairro e nunca tinha me aproximando dos ‘meninos da cidade’, não fazia a mínima idéia do que isso significava. Mas deixei ela dar um empurrão no destino. Seja lá o que fosse, Deus ia saber se eu merecia.
Os dias foram passando e nada aconteceu. Eu continuava olhando para ele e ele sem me notar. Num daqueles dias em que nossa esperança nos conforta dizendo: “É, já deu”, eis que acontece: perco a fala, meus joelhos não seguram minhas pernas, as mãos suadas, corpo todo tremendo. Ele! O primeiro grande amor da minha vida! Na frente da escola, da minha escola! Lembro-me como se fosse hoje: farda do colégio, bermuda azul jeans, tênis pretos com meias brancas acima dos maléolos, cabelo preso e o corpo encostado na parede com uma das pernas flexionadas fazendo uma espécie de “4”, levava as mãos nos bolsos. Conversava com uma menina que só depois descobrir ser amiga dessa minha amiga de escola. Quando nos viram, ela se precipitou a apresentar-nos. “Fábio”. Não me recordo de ter dito meu nome, mas ele o repetiu para mim com uma voz de homem num corpo de menino. Roçou sua barbinha rala em meu rosto atônito num duplo beijo de apresentação. Eu juro que estava sonhando! Sim! Estava sonhando, só podia ser isso! Esperei meu coração descer pela minha garganta abaixo e simplesmente sorri. Ele retribuiu meu sorriso e emendou um elogio: meus olhos eram lindos. Cadê o chão?! Ó, meu Deus! Taquicardia, euforia, agitação. Milhares de neurotransmissores num intervalo curtíssimo de tempo. Pra que drogas? Eu só me apaixono. Fico boba, aérea, leve...
Dias se passaram, papos no ônibus, no banco de cimento (eu já havia “me mudado” para o outro lado da rua e me integrava com os amigos e amigas dele), saídas das aulas, shopping em algum horário vago para ambos. Numa tarde de noites longas, uma escadinha providencial, um convite para sentarmos. Uma conversa ao pé do ouvido, um arrepio no corpo e um beijo inesquecível! Meu primeiro beijo de paixão. Mais uma vez meus joelhos se dobraram, meu corpo balançou num tremor e meu estômago se remexeu no seu canto. Vi estrelas, borboletas e algo que depois seria uma das minhas paixões: Bob Marley. Era a primeira vez que ouvia com coração a este cantor jamaicano. A música era “Is this love” e o Bob fazia a trilha desse amor adolescente. Ele com 17, eu com 13. Tudo era mágico, lindo, idílico, sincero e eterno.
Encontramos-nos algumas vezes depois disso, sempre ao som do Bob e sempre com a mesma vontade da primeira vez. Assim como a vida nos juntou, nos separou. Sem qualquer explicação. Só uma saudade e uma pergunta: “E se?”. Teria sido realmente inesquecível se tivéssemos namorado? Ou passado mais tempo juntos? Ou qualquer outra coisa? Não poderia responder. Não saberia responder. Só sei de uma coisa: essa foi a primeira vez que me apaixonei “pseudo-platonicamente”* e desde então nunca mais parei. Todos os dias me pego pensando num amor ou criando e recriando um novo amor. Todos os dias isso acontece, mas nenhum deles tão marcante quanto aquele de 1998.
Disso tudo só uma coisa ficou com força total: Bob Marley. Ao ouvir sua vozinha rouca, sinto uma deliciosa nostalgia e uma eterna vontade de não parar nunca de amar.
*Depois explico a expressão por mim criada.
“Is this love, is this love, is this love
Is this love that I'm feeling?
Is this love, is this love, is this love
Is this love that I'm feeling?”
[Bob Marley]
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