OLÁ SHREK, EU SOU FIONA
- Oi, gata! Podemos teclar?
- Olá! Podemos sim!
- Qual sua idade?
- É...
- Mora onde? Como você é?
- ...
- Isso importa?
- Me descreva como você é.
- Repito: isso importa? Preciso ser bonita pra merecer sua atenção?
- Ah, deve ser feia. Tchau!
- ????
Isso é bem mais comum do que se imagina. A valorização da beleza, do material do perfeito, e o esquecimento do ser humano, do intelecto e da personalidade, fazem parte do nosso dia a dia. A mulher tem que ser linda, moderna, andar na mora, vestir 38 e calçar 36. O homem tem que ser, no mínimo, tão bonito quanto o Gianecchini e tão rico quanto o Bill Gates, senão não serve nem pra trocar lâmpada.
Como eu não me enquadro nos padrões impostos pela sociedade, posso falar mesmo (já sou excluída!). Que absurdo isso! Um abuso, um atentado ao que somos e ao que pensamos! Não, simpática, agradável, inteligente não presta. Pra que isso? Mulher tem que ter tudo no lugar: cintura, pernas, coxas torneadas, cabelo sempre lindo. Espinha? Nem pensar! Celulite, estria? Cai fora! Se for agraciada por Deus com várias camadas de tecido adiposo, então, já era! Essa será banida para sempre do Cosmo.
É certo que, desde os tempos mais remotos da História, as sociedades ditam o que é ser bonito. Em algumas culturas orientais, ter pés pequenos era obrigatório. Resultado: deformação nos ossos do tarso, metatarso e artelhos (ai, baixei a fisioterapeuta!). Em outras nações o pescoço tem que medir mais de
Não bastasse isso, você tem que ter dinheiro. E isso também é cultural. Sempre existiu a hierarquia e, consequentemente, quem mandava e quem obedecia, quem tinha mais e quem tinha menos. Os que tinham mais se vestiam melhor e exibiam, nos acessórios, cabelo e até no cheiro, seu status. Os que tinham menos, bem, os que tinham menos não tinham nada e pronto.
Até hoje colhemos os frutos amargos (bem clichê mesmo) de todo um passado de exclusão do que é feio e assimétrico. Os homens bonitos não se interessam por mulheres inteligentes, mal sabendo eles que a beleza é tão efêmera quanto a própria vida e que vale mais a pena um relacionamento com uma pessoa que saiba conversar do que com uma Barbie que em 20, 30 anos vai ter mais pele flácida, rugas e sinais de envelhecimento quanto um maracujá (pelo menos o maracujá ainda tem conteúdo).
É lógico, não estou aqui querendo defender o horroroso, o feio, o anormal (Carol, olha o preconceito!). Só estou refletindo sobre essa doença que nos consome e nos impede de ver um príncipe vestido de Shrek. Eu também gosto de ver o belo, mas entendo que isso não importa de fato. Prefiro uma pessoa sensível e companheira, a um “moreno, alto, bonito, sensual” que perde para um amendoim quando o assunto é intelecto.
Termino meu desabafo com um trecho de uma música da Ana Carolina, “Implicante”:
“... de que vale teu cabelo liso e as idéias enroladas dentro da tua cabeça?...”
Saudações,
Ana Póbrimân e Fêiamên
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